fala de abertura

São Carlos, 16 mar. 2017 – 9h15

Bom dia!

Que alegria imensa estar aqui. Estarmos aqui.

E preciso dizer com ênfase, nestes tempos tão aflitos que vivemos, que é uma ALEGRIA!

Daquelas genuínas, construídas.

Já que decidimos não convidar nenhuma autoridade protocolar para esta abertura, eu posso dizer neste tom, cheio dessa alegria, que fui encarregada pela Comissão Organizadora de dizer umas primeiras palavras, dando início aos trabalhos deste III Fórum Nacional sobre a Formação e a Atuação Profissional do Revisor de Textos, que nesta edição propõe o título “Mediação Editorial, Letramentos e Mercado”.

Não só ampliando o rol de temas de um encontro destas dimensões, mas reconhecendo que a revisão de textos é um nó fundamental de uma rede de problemas interessantes e muito imbricados…

Mais que reconhecendo, frisando que se trata de compreender a fina relação entre processos de criação e processos de produção, que frequentemente são estudados e vividos no mercado de trabalho como segmentos, como etapas estanques – e sabemos que nunca são!

Há uma enormidade de coisas acontecendo entre a chegada de textos autorais a cadeias criativas e produtivas que vão dar vida, pulsação aos textos, e sua circulação no mundo. Há uma enormidade de processos que presidem as lógicas de distribuição desses objetos no mundo.

Este fórum propõe assumirmos essa rede como o espaço de pesquisa. E pesquisa, aqui, não só acadêmica: bem sabemos, todos nós, o quanto o revisor de textos trabalha em estado permanente de pesquisa, bem no meio de tudo isso, ali na tessitura mínima dos textos e em diálogo com todos os outros processos que fazem de um texto um objeto editorial.

Assumir isso implica considerar pelo menos três aspectos dessa rede de problemas interessantes:

  1. que vivemos um tempo de fluxos de textos multimodais, tecnicamente acelerados, sobrepostos, remixados… um período em que esses textos são parte fundamental do poder; um poder caracterizado pela distribuição (ou pela contenção) de informações;
  2. que toda a divisão do trabalho intelectual está assentada na produção textual, e a revisão de textos é uma espécie de miolinho poderoso desse processo poderoso, encarregada de um trabalho que acontece com os textos ainda abertos, em processo, podendo vir a ser isto ou aquilo;
  3. e que, no entanto, sendo dos ofícios mais antigos, segue sendo, mesmo com todo esse poder, muito desconhecido.

Interessante notar como sempre se apagou e até se evitou mostrar que há revisão de textos, o que se faz na revisão de textos e, portanto, se evitou sempre entender direito o que é a revisão de textos – e, então, como se remuera, de que condições o trabalho precisa pra acontecer etc.

Este Fórum nasceu assim: pra falar desse não-falado.

A história dele [do Fórum] esta lá no site do evento, vocês podem ler lá de que modo pessoas que estão na mesa de hoje e na de amanhã inventaram, experimentaram formatos e deram consequência a uma demanda tão evidente quanto reprimida por entender esse ofício e os ofícios afins, por entender como uns delizam nos outros e que formações são requeridas para exercê-los.

Mas não desfio este rosário agora. Ele vai ser desfiado nas falas e nos livros que circularão entre nós nestes dias.

De fato, nós, do COMUNICA, recebemos com entusiasmo a responsabilidade desta 3a edição certos de que há aqui um caminho se firmando… Já temos até candidatos a receber a 4a edição e, vejam só, de gente que nem pôde vir a esta!

Aliás, uma das alegrias desta edição do Fórum foi ver que ele movimentou espaços fora daqui (universidades, faculdades, editoras e outras entidades publicadoras), recebemos muitas mensagens de que gente que não virá, mas que escreveu, perguntou, declarou querer entrar nesta roda.

Então, este Fórum nasceu pra ser um caminho de construção não só de uma rubrica de pesquisa efetiva, mas de um lugar de conversa capaz de dar força institucional a ações inclusive de regulamentação profissional adequada à realidade dos ofícios editoriais.

Importante demais! Sobretudo nestes tempos em que os trabalhadores estão sob ameaças tão violentas.

Preciso, por isso, falar um pouco das condições em que isto aqui se tornou possível: num Estado de exceção instalado, em que garantias constitucionais têm sido, uma a uma – e em forma de avalanche! – suprimidas, algumas suadamente conseguidas bem recentemente, outras estabelecidas há décadas já… enfim, no contexto de um Estado de exceção que dificulta por todos os meios – alguns disfarçados de legalidade – os encontros, as reuniões, principalmente as reuniões de gente que quer pensar, nós fizemos esta edição do Fórum na unha!

Houve quem reclamasse do fato de nossa programação ir crescendo ao longo dos meses… de não ser estável desde o começo… Ou da demora em publicarmos o Caderno de Resumos definitivo…

Sabe…? Somos só um Grupo de Pesquisa da universidade.

De uma vicejante universidade federal pública, é verdade, bastante inclusiva, diversa e alvissareira, que vimos construindo nos últimos anos com afinco e bons resultados. Mas que tem sido golpeada sistematicamente.

Não temos assessoria contábil, secretariamento de qualquer tipo…

Dos programas de pós, conseguimos um par de estadias e passagens para dois palestrantes, do Instituto de Línguas conseguimos o empréstimo de computadores e a ajuda inestimável da Renata, que o secretariava… Também o Laboratório de Fonética cedeu gentilmente duas máquinas.

Das agências de fomento, de cujos editais participamos, recebemos 1/6 do valor pleiteado – e o dinheiro chegou há poucos dias…

E mesmo assim mantivemos os valores das inscrições – muito abaixo dos habituais em congressos.

E mesmo assim mantivemos os procedimentos que nos exigiram duas temporadas de inscrição e o exame detido de diversos casos individuais que fugiam completamente ao funcionamento geral.

Nossa diretriz – herdada do espírito das edições anteriores – sempre foi trabalhar pra que de fato os interessados pudessem estar aqui. Isso aumentou o número de comunicações por sala, por exemplo, comunicações interessantíssimas aliás, pras quais convido todos os ouvintes, amanhã à tarde.

Procuramos descontos em hotéis e restaurantes, e procuramos viabilizar a participação dos alunos da casa, cujo calendário acadêmico foi bastante alterado pelos nefastos episódios de 2016.

Procuramos dar condições de trabalho aos monitores voluntários, a quem agradeço muitíssimo em nome da Organização.

Foi preciso estarmos o tempo todo atentos e fortes.

E se conto tudo isso a vocês, não é porque queremos registrar uma epopeia heroica do COMUNICA, mas porque queremos convidar todos a esta atitude de participante: que estes sejam dias em que todos trabalhemos juntos pelo nosso fórum, zelemos juntos pelos usos dos espaços, pelo encaminhamento de eventuais problemas à equipe que tem esse crachá vermelhinho… e que conversemos muito!

Nas atividades formalmente previstas e nos intervalos, tão proveitosos pra conhecer pessoas, trocar ideias e estabelecer contatos.

[Não se esqueçam do SARAU DO FÓRUM hoje à noite! – imperdível!]

Por isso também evitamos muitas atividades simultâneas, preferindo as plenárias: este formato é um convite ao encontro, ao exercício da vontade política – que não é outra coisa senão esse desejo sincero de ouvir o outro, de ir ao encontro do que é outro, de pensar alto junto.

Nesta altura, preciso agradecer imensamente aos palestrantes – os de hoje e os de amanhã – por terem sido tão receptivos aos vaivéns que decorreram do sumiço de editais de auxílio, das verbas regulares do funcionamento acadêmico, da dificultação incrível que o atual estado da economia foi desaguando sobre nós.

Preciso dizer que remamos contra muita maré.

Neste um ano de preparo desta 3a edição, houve momentos em que pareceu impossível reunir gente pra pensar, ainda mais sobre um tema tão novo na pesquisa acadêmica, e que tem a ver com um ofício tão fortemente apagado ao longo da história…

Mas estamos aqui!

E peço licença a vocês para fazer soar alguns nomes…

Na experiência que tive neste último ano cheio de cortes, supressões de espaços de fala e abusos variados; abusos instiladores de um ódio que tem produzido inclusive mortes, um ódio voltado sobretudo contra o trabalhador, um ódio que promove iniciativas que buscam satanizar a própria ideia de trabalhador… enfim, gostaria de fazer soar nomes que são, na experiência que vivemos neste último ano, nomes de gente dedicada, organizada, criativa, divertida, confiável… Gente que – permitam-me uma nota bem pessoal – me fez seguir acordando todos os dias, nestes tempos sombrios, com força renovada e um norte para a ação.

Agradeço profundamente ao coletivo de trabalho:

Amanda Chieregatti
Amanda Guimarães
Andressa Leonardo
Claudia Maria de Serrão
Daniela Mafer
Débora Esteves Baptista
Diogo Chagas
Fernanda Capelari de Carvalho
Gustavo Primo
Helena Boschi
Letícia Clares
Pedro Alberto Ribeiro Pinto
Vitória Doretto

Eles celebraram a cada um dos nossos dias, e nestes últimos, a cada hora da véspera, aquilo que no fim das contas o trabalho do revisor de textos celebra sempre: a interlocução.

O revisor – que não é um corretor de textos, não é um avaliador de textos, que é um tanto leitor e um tanto escriba – está sempre chamado a dar-se ao texto de um outro que, por causa do seu trabalho, é chamado a ver esse outro também.

Pois bem, quis dizer estes nomes para que figurem como emblemáticos disto que celebramos hoje, isso que nos faz humanos: sermos o que somos no modo como nos damos ao encontro, aos encontros.

Não é razão pra alegria isso?!

Assim é que nós, da Comissão Organizadora, agradecemos que estejam aqui com esse espírito, e desejamos que estes sejam dias de celebração dessa nossa condição humana – a de interlocutores.

Que saibamos nos ouvir e que todos falemos do que é preciso falar!

Bom Fórum pra nós.

Luciana Salazar Salgado